E se não quisermos, não pudermos, não soubermos, com palavras, nos dizer um pouco um para o outro, senta ao meu lado assim mesmo. Deixa os nossos olhos se encontrarem vez ou outra até nascer aquele sorriso bom que acontece quando a vida da gente se sente olhada com amor. Senta apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras.
Ana Jácomo
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
terça-feira, 18 de setembro de 2012
A palavra
(Rubem Braga)
Tanto que tenho falado,
tanto que tenho escrito - como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às
vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma
reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
Às vezes, também a gente
tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a
se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco,
a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia
eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve
ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade
porque senti no momento - e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa
vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o
canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao
piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura;
que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador;
até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de
futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga
estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de
Beethoven - e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta
ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse
distraído - talvez palavras de algum poeta antigo - foi despertar melodias
esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de
repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E
isso fizesse bem ao coração do povo, iluminasse um pouco as suas pobres
choupanas e as suas remotas esperanças.
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